Publicado em 24 Janeiro 2016
Euclides Oliveira

“Os mercados emergentes devem estar preparados para um golpe potencialmente grave. O ajuste pode ser violento; e os dirigentes políticos têm que estar preparados". Foi exatamente na segunda-feira (18) que a frase acima - extraída de uma entrevista do presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens, ao jornal britânico Financial Times - indicou o principal cenário de incertezas para os 44 mil habitantes de Niquelândia, quando a mineradora Votorantim Metais anunciou a suspensão das atividades de sua gigantesca planta de minério de níquel no Acampamento Macedo.
Ao todo, 780 demissões serão efetivadas até maio: 160 trabalhadores deixam a empresa já em 1º de fevereiro, (quando haverá a paralisação da extração do minério, na lavra) e os outros 640 trabalhadores seguem até o dia 30 de abril (último dia do beneficiamento do minério a ser extraído nos próximos 90 dias). Depois disso, apenas 10% dos empregados serão mantidos para a infraestrutura necessária e garantia da execução dos compromissos legais e socioambientais vigentes.
Os cortes - de acordo com o gerente-geral da empresa, José Maximino Ferron - são uma consequência direta da desaceleração econômica da China, cujo Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 6,9% em 2015. Por isso, segundo ele, a Votorantim sofreu o impacto da redução da demanda por metais básicos - caso do níquel - cujo preço da tonelada no mercado internacional caiu a irrisórios US$ 8.200 dólares (cerca de R$ 33.620,00 pela cotação do dólar a R$ 4,10 na quinta-feira/21). De acordo com o executivo da multinacional, nem mesmo a valorização da moeda americana frente ao Real foi suficiente para garantir a viabilidade do negócio neste momento. Em 2008, para breve efeito de comparação - quando a crise econômica mundial daquele ano paralisou o Projeto Ferro-Níquel, em Niquelândia - o preço da tonelada do níquel havia caído para US$ 9.800 dólares. Esse valor - há pouco mais de sete anos, já era incrivelmente baixo na comparação com 2006 quando o Projeto Ferro Níquel foi lançado: à época, a tonelada do níquel estava cotada em US$ 50.000 dólares e a moeda americana valia R$ 2,15. Ou seja, em outubro de 2006, a tonelada do níquel valia R$ 107.500,00 ou quase 3,2 vezes acima que o preço da última semana.
"O negócio de Metais - nas áreas de Mineração e de Metalurgia, no Brasil e fora do País - vem há algum tempo enfrentando uma dificuldade muito grande por conta da situação mercadológica dessas comodities, que enfrentam grande queda na LME (London Metal Exchange, a Bolsa de Valores de Londres, na Inglaterra). Um dos fatores que definem essa situação é o baixo crescimento da China, que é um dos principais compradores de metais no mundo; e também a grande oferta desse metal (níquel) no mundo. Por conta disso, desde 2013 enfrentávamos uma queda acentuada no preço desses metais. E, no ano de 2015, essa situação se agravou bastante com uma queda de 40% no preço, o que nos deixou em situação bem difícil de sustentabilidade econômica do nossos negócios de níquel tanto em Niquelândia como em São Miguel Paulista, em São Paulo, onde é feito o refinamento do minério em carbonato de níquel (onde outros 350 postos de trabalho serão fechados). Foi uma decisão difícil, mas necessária neste momento", comentou o gerente-geral. De acordo com José Maximino, haverá continuidade, por tempo indeterminado, dos investimentos nos programas sociais em Niquelândia e em SP.
CHOQUE
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de Niquelândia (Sitien), Geraldo Lopes de Souza, a direção da Votorantim reuniu-se com a diretoria naquele dia para oficializar a decisão da paralisação gradual das atividades e abrir o diálogo para tratar sobre as condições de desligamento dos colaboradores. De acordo com Geraldo, o impacto desse acontecimento é péssimo e negativo para Niquelândia, lembrando que além dos 800 empregados diretos, existia na cidade uma extensa gama de funcionários de empresas terceirizadas (do próprio município ou de outros Estados) que alocavam mão-de-obra à Votorantim, de tal forma que o número de demitidos pode chegar a 2.000 pessoas. Com menos gente na cidade para consumir, segundo Geraldo, haverá uma reação em cadeia no comércio local com demissões em oficinas; açougues, supermercados padarias; e salões de beleza; dentre outros pequenos comércios nos mais variados ramos de atividade. Quem também deve amargar prejuízos imensuráveis é a Cooperativa dos Profissionais de Transportes de Niquelândia (Niquelcoop): proprietários de um ou mais caminhões de grande porte, normalmente pessoas físicas, "fichavam" seu caminhões na Niquelcoop que era a intermediária na locação de seus equipamentos à Votorantim Metais.
Ainda na terça-feira (19), o Sitien e a Associação Comercial e Industrial de Niquelândia (Acin) reuniram-se com diretores de outras entidades para discutir novas alternativas econômicas à cidade diante da nova realidade; a possibilidade de decretação de "Situação de Emergência Social" pelo Poder Executivo em consonância com o Poder Legislativo pela brutal e repentina elevação do desemprego na cidade; e até mesmo uma Compensação Financeira Adicional da Votorantim Metais nos moldes do que ocorreu em 2014 em Fortaleza de Minas (MG), cidade de quatro mil habitantes onde a multinacional também interrompeu a exploração de níquel: a Votorantim recolheu, à prefeitura local, cerca de R$ 350.000,00 após acordo proposto pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de Minas Gerais. Cálculos iniciais apontam que a Prefeitura de Niquelândia poderia receber cerca de R$ 7 milhões a título de compensação, para investimentos em programas sociais.
PREFEITO
O prefeito de Niquelândia, Luiz Teixeira (PSD), disse que o impacto orçamentário na administração municipal, de imediato, resultará na queda de R$ 500.000,00/mês com a redução na arrecadação do ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza, de 4%) cobrado das empresas que prestavam, até então, serviços à Votorantim; e outros R$ 100.000,00/mês a menos na arrecadação do royalties minerais/CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais). O próximo prefeito da cidade - a ser empossado em janeiro de 2017 - também contará com orçamento reduzido com a diminuição da participação de Niquelândia no rateio do ICMS arrecadado pelo Governo de Goiás, por meio do Conselho Deliberativo dos Índices de Participação dos Municípios (Coíndice). "Se a nossa situação (da prefeitura) já era difícil, agora ficará insuportável. Mas, de maneira alguma, podemos condenar a empresa (a Votorantim Metais) por essa decisão (de paralisar as atividades). Foi o mercado internacional que determinou, infelizmente, essa situação. Falamos com a empresa; ouvimos suas ponderações; e também fizemos as nossas, em que eles concordaram. Também conversamos com o secretário de Estado, Vilmar Rocha, que deverá reunir-se em breve, comigo e com o governador Marconi Perillo (PSDB), com o diretor-presidente da Votorantim Metais, Tito Botelho Martins. Estamos conscientes de que o problema é muito sério, mas Niquelândia não vai deixar de existir ou de prosperar pois nosso povo é muito criativo e poderemos desenvolver outros ramos de atividade para que, de alguma forma, nossa economia possa novamente se estabilizar", disse Luiz Teixeira.
SECRETÁRIO
O titular da Secretaria Estadual de Cidades, Infraestrutura e Meio Ambiente (Secima), Vilmar Rocha (PSD) conversou com o DN em Goiânia na última semana sobre a paralisação da Votorantim Metais em sua cidade natal. Segundo Vilmar, ele e governador Marconi Perillo (PSDB) embora cientes de que se trata de um problema do preço do níquel no mercado internacional - agendaram reunião com o diretor Tito Martins (da VM em São Paulo), em Goiânia. Não temos, evidentemente, como interferir (na decisão da empresa). Mas nós (o Governo do Goiás) queremos nesse momento discutir alternativas e soluções para reduzir a gravidade e a repercussão negativa disso em nossa cidade e nossa região", comentou Vilmar.
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