Publicado em 18 Novembro 2019
Jaldene Nunes
Quando, em 2000, Fábio de Oliveira Cunha, policial militar há 14 anos, ingressou no curso de Letras, na Universidade Estadual de Goiás, Campus Goianésia, não imaginava que sua vida ficaria marcada pela admiração a um dos maiores poetas que o Brasil já teve, Augusto dos Anjos (1884-1914). Hoje, o paraibano -- que morreu precocemente, com apenas 30 anos de idade, há 105 anos, completados na semana passada, deixando obra admirada ainda nos tempos atuais tanto por leigos quanto por críticos literários --, dá até nome à sua biblioteca particular, que tem carimbo e tudo.
É verdade que, no momento, a Biblioteca Particular Augusto dos Anjos, de Fábio, não tem prateleiras. "Só uma estante de aço na casa da minha mãe", conta o policial militar. "Quando eu construí uma casa no Parque das Palmeiras, deixei um cômodo exclusivo para ela. Iria fazer prateleiras na parede, personalizadas. Mas vendi o imóvel e adiei o projeto", explica.
Assim, os livros de sua biblioteca estão amontados em caixas que, entretanto, Fábio zela sempre em suas folgas.
Essa admiração de Fábio pelo poeta de importância nacional, só reconhecido depois de sua morte, deu-se tardiamente, aos 19 anos, quando ele ingressou na UEG, onde graduou-se em Letras --Português/Inglês--, em 2004.
"Eu o descobri já tarde, por influência de um professor da faculdade de Letras. No ensino médio não tive contato com o autor", lamenta o amante da literatura e, hoje, um dos mais fiéis admiradores do poeta que vivenciou a época do Parnasianismo e Simbolismo, mas que muitos o encaixam na fase de transição para o Modernismo, chamada Pré-modernismo.
"E passei a gostar e a declamar suas poesias", completa, citando um dos poemas de que mais gosta: "Vandalismo", extraído do único livro de Augusto dos Anjos publicado em vida, EU, de 1912.
Desde então, Fábio estava decidido a homenageá-lo, tornando-o patrono de sua biblioteca. Em 2000, ele já tinha o carimbo, marca de toda a sua coleção literária. Quando o adquiriu, no entanto, era mais para carimbar as suas revistas Placar. "Depois, é que fui adquirindo os livros", confirma.
Apesar da admiração tardia por Augusto dos Anjos, Fábio de Oliveira Cunha se mantém fiel à obra poética do patrono de sua biblioteca: "Ler Augusto dos Anjos é maravilhar nas suas rimas com as sonoridades de seus sonetos e poemas", justifica.
Hoje, em seu acervo ainda pequeno -- de pouco mais de 50 obras --, estão três exemplares de edições diferentes de EU --uma delas, a mais antiga, Toda a Poesia de Augusto dos Anjos e um ensaio crítico de Ferreira Gullar, de 1978.
"EU, com 58 poemas, é a única obra de Augusto dos Anjos publicada em vida, há mais de 100 anos. Postumamente, lançou-se EU e Outras Poesias, com os mesmos 58 poemas mais outros não publicados em vida", explica Fábio, orgulhoso de ter ainda uma edição fac-símile do livro original do autor, publicada em 2015, no qual foi reproduzida a capa de 1912, além de outra, de 2016, da mesma obra do poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016) sobre Augusto.
VIAGEM A SAPÉ
A condição de fã do poeta, um dos mais críticos de seu tempo, foi confirmada por Fábio em 2017, quando ele, de férias, foi conhecer a cidade natal do poeta, Sapé, na Paraíba, na Região Geográfica Imediata de João Pessoa.
Na cidade de Sapé, de 52,6 mil habitantes (IBGE, 2019) e a 45 quilômetros de João Pessoa, capital da Paraíba, Fábio e sua esposa, a conselheira tutelar eleita de Goianésia, Fernanda Cristina Tavares Silva, conheceram o Memorial Augusto dos Anjos, dedicado à obra e à memória do poeta. O museu, na casa que foi residência da ama de leite do poeta, a escrava Guilhermina, fica na zona rural do município.
Lá, além do Memorial, o visitante ficou à sombra do pé de tamarindo de mais de 300 anos, símbolo da obra de Augusto dos Anjos, que o canta no poema Debaixo do Tamarindo, escrito em 1909, versos que Fábio também mais gosta e declama: "Quando pararem todos os relógios / De minha vida, e a voz dos necrológios / Gritar nos noticiários que eu morri, /
Voltando à pátria da homogeneidade, / Abraçada com a própria Eternidade /A minha sombra há de ficar aqui!"
Desse pé de tamarindo, Fábio trouxe uma semente que queria plantar, para que essa árvore desse origem a uma praça em Goianésia - a Praça Augusto dos Anjos. O objetivo era colocar duas placas no local, com os poemas Vozes da Morte e Debaixo do Tamarindo.
"Trouxe o fruto, coloquei a semente numa lata de margarina, ela germinou, eu a transplantei para uma lata de tinta de 18 litros, já estava grande, tinha mais de ano, mas, quando a transplantei, ela já enraizada na terra morreu", narra Fábio, que pretende voltar a Sapé e trazer outra semente do pé de tamarindo para a homenagem.
Com sua esposa, Fábio ainda foi à capital paraibana, onde o casal visitou a sede da Academia Paraibana de Letras (APL), de cujo sodalício o poeta é patrono da cadeira número 1 e onde a Sala Augusto dos Anjoso homenageia com painéis, quadros, fotografias e obras do autor.
Fábio acrescenta que o paraibano também é patrono da Academia Leopoldinense de Letras e Artes, em Leopoldina (MG) -- onde Augusto dos Anjos morreu, em 12 de novembro de 1914 --, seu próximo destino.
GOSTO PELA LEITURA
Questionado pelo Diário do Norte se espera que seu gosto pela leitura e pela poesia influencie outras pessoas, Fábio diz que sim, citando especialmente o seu filho.
"Espero que venha influenciar meu filho, que hoje está com 1 ano, 8 meses e 8 dias --Augusto dos Anjos também gostava disso: ano, mês e dias; e ele viveu 30 anos, 6 meses e 22 dias. Também espero que, quando o meu filho estiver alfabetizado, a minha biblioteca particular Augusto dos Anjos esteja melhor estruturada", diz o militar, que ainda esclarece, sobre Augusto dos Anjos, dizendo que o poeta não nasceu exatamente em Sapé, mas em Engenho do Pau d'Arco, no dia 20 de abril de 1884.
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