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Família de Zé Porfírio indenizada

Perseguido, cassado e assassinado nos porões da ditadura, líder camponês representa um marco da liberdade no Norte do Estado e um ícone entre os trabalhadores rurais, especialmente os sem terra


Publicado em 06 Maio 2007

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FERNANDA MARTINS
Um capítulo importante da história de Goiás e da região Norte do Estado foi resgatado recentemente. A comissão de Anistia do Munistério da Justiça concedeu à família de José Porfírio de Souza, o "Zé Porfírio", uma indenização de R$ 100 mil. A anistia post-morten foi requerida pela viúva do camponês desaparecido nos anos 70, Dorina Pinto da Silva, hoje com 70 anos. O julgamento ocorreu no início do mês, quando a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG) recebeu a Caravana da Anistia. O projeto, do Ministério da Justiça, tem o objetivo de tornar mais transparentes os julgamentos de processos de ex-perseguidos políticos. O nome de José Porfírio figura na lista de nove ex-perseguidos políticos do Estado que foram julgados pela Comissão de Anistia em Goiânia. Nos anos 50, ele liderou a Revolta de Trombas e Formoso. Trata-se de um conflito por terras na região. A participação na revolta de Trombas e Formoso deu a Porfírio uma popularidade singular, que fez com que ele fosse o primeiro trabalhador rural a ser eleito deputado estadual, dez anos depois do conflito. A mesma popularidade que transformou o camponês em deputado também foi motivo de perseguição nos anos da ditadura militar, instalada no País em 64. Cassado, Porfírio se escondeu da ditadura por oito anos com a família. "Vivíamos fugindo como bandidos, sem poder firmar pé em lugar nenhum e não podíamos nem ver nossos parentes", lembra Dorina. A filha mais nova do casal, Vanuza Pinto da Silva, sequer foi registrada com o nome do pai. "Ela tinha poucos meses de vida quando encontraram a gente no Maranhão e prenderam Porfírio", lembra. Para elas, a indenização é uma forma de reconhecer os transtornos que a ditadura trouxe à família, mas ainda é muito pouco perto das perdas que tiveram, já que, segundo elas, não foi apenas Porfírio que se viu obrigado a cair na clandestinidade por causa das perseguições. "Até hoje nem sabemos onde meu pai foi enterrado, quem matou ele, como foi que ele morreu, e isso é muito triste, além de termos passado por tantas dificuldades com ele e sem ele, por causa da ditadura", argumenta Vanuza. Depois de anos de perseguição, o líder revolucionário foi preso e torturado nos porões da ditadura militar. Desde então, nunca mais foi visto. Hoje ainda é considerado como desaparecido político. As lembranças de família tiveram que ser destruídas inclusive pela irmã de Porfírio, que se desfez de manuscritos e fotos dele temendo represálias da polícia. "Naquele tempo qualquer coisa que mostrasse nossa ligação com ele representava perigo para nós", lembra Isabel Oliveira, sobrinha de José Porfírio, que mora em Minaçu. O líder camponês nasceu em Pedro Afonso, hoje situada no Estado do Tocantins. Mas é em Trombas que até hoje o feito do camponês que desafiou o poder das elites é lembrado nas escolas, durante as aulas de História, e por toda a população. Recentemente, o atual prefeito de Trombas, Élson Carlos, revelou ao Diário do Norte que pretende fazer uma homenagem ao camponês na entrada da cidade. "Faremos uma placa com os dizeres 'Bem-vindo a Trombas, terra de José Porfírio", disse o prefeito. Na cidade há inúmeras versões sobre o desaparecimento de José Porfírio. Alguns acreditam que o líder revolucionário tenha sido libertado e, depois de encontrar um amigo tenha desaparecido definitivamente. Outros, porém, especulam que ele teria ficado com sérios problemas mentais em função da tortura sofrida e se perdido da família. A viúva de Porfírio diz que, enquanto era prisioneiro da ditadura, ele chegou a ser levado a Trombas uma vez, pelos policiais. "Mas quando fiquei sabendo, já tinham levado ele de lá, teria sido minha chance de encontrá-lo pela última vez", emociona-se. Além de José Porfírio, também foram julgados José Coelho Noleto, Benito Pereira Damasceno.

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