Publicado em 04 Junho 2019
Welliton Carlos
Dona Angélica resgatou da infância na roça a produção de um alimento que está no imaginário do povo goiano: a carne de lata inserida na banha. Para quem conhece bem, melhor sabor não existe: a carne fica mais estruturada e encorpada, além de natural.
Não demorou muito e a banha voltou a ser utilizada como alternativa saudável aos óleos vegetais (batizados negativamente na internet como “óleo do infarto”). Dentre os 100 alimentos mais nutritivos do mundo, a gordura de porco aparece em oitavo lugar. É fonte de vitamina B e minerais.
Conforme pesquisas em nutrição, a gordura de porco é menos saturada e mais saudável do que a do cordeiro ou do boi, por exemplo.
Angélica diz que o resgate do alimento se deve a uma experiência viva, já que morou boa parte da sua vida nas fazendas. A carne na lata é uma tradição familiar que foi repassada de geração para geração, cujo maior mérito é manter práticas saudáveis que sempre deram certo em um passado sem energia elétrica acessível
Angélica lembra que existe hoje grande demanda nos supermercados, já que cada vez mais é comum uma prateleira com produtos naturais e tradicionais chamar a atenção dos clientes mais atentos. “A demanda é muito maior do que conseguimos produzir. De repente, a comida da vovó foi reconhecida pelo tempero, valor nutricional e sabor. É um prazer muito grande poder compartilhar nossas experiências com as pessoas mais jovens”.
A produtora rural Maria Marlene, também adepta da carne na lata, explica que o produto feito em casa pode durar até três meses. Ela diz que vários participantes da Festa do Divino, realizada em Trindade, levam junto ao carro de boi a iguaria. Era a comida dos tropeiros no passado, hoje servida nas festas de junho e julho de Goiás.
PAÇOCA
Como a carne da lata, outra guloseima típica do Brasil, a paçoca faz sucesso em qualquer época do ano. Mas a chegada das festas juninas sublinha sua força e tradição.
O alimento tem origem indígena, sendo feita à base de farinha de mandioca e carne seca. “É um produto que já se tornou folclore nacional, superando a mera condição de alimento. Paçoca vem do tupi pa'soka, união de paba com soka: enfiar e soca. É o modo de preparo: enfiam a paçoca (farinha com carne) em um moinho”, diz o pesquisador Waldomiro Barbosa, pesquisador de tradições culturais do Centro-Oeste.
É também uma forma de comer a “carne” encontrada no Brasil dos ermos e gerais. Se antes para os índios era servida pura, com a chegada dos portugueses tornou-se - como a banha - um alimento adornado pelo seu contorno alimentício.
MATULA
Sob a égide da sociologia da alimentação, percorreu um novo trajeto: a farinha de mandioca socada no pilão com carne-seca sustentou inicialmente escravos enclausurados na exaustão do eito.
Depois, deixou o roçado da plantação, assumindo o lugar dos viajantes na Estrada Real. Os boiadeiros do Sertão da Farinha Seca chegaram em Goiás com carne na lata e paçoca bem guardadas no lombo dos animais.
No século 20, voltou a ser ‘comida de força’, principalmente quando virou “matula” para os nordestinos que migraram primeiro para São Paulo e depois para o Entorno do Distrito Federal, nas proximidades de Brasília.
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