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POLÊMICA

Bob Dylan ganha o cobiçado Nobel de Literatura

Uma carreira musical dedicada ao ato de escrever assegurou ao cantor americano o prêmio deste ano


Publicado em 16 Outubro 2016

Welliton Carlos Especial para o DN

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fotos: Divulgação
Bob Dylan inspirou (e ainda inspira) legiões de fãs e de bandas de sucesso
Bob Dylan inspirou (e ainda inspira) legiões de fãs e de bandas de sucesso

Vitorioso no prêmio Nobel de literatura 2016, Bob Dylan é considerado um compositor de grandeza. Fundador da cultura pop moderna cuja contestação e o princípio de que a arte se propõe a despertar a reflexão sobre a existência, ele criou seguidores como Beatles, Rolling Stones e Pearl Jam, dentre outras legiões de fãs famosos.
A notícia de sua vitória ao prêmio foi questionada por alguns incrédulos. Afinal, como um cantor poderia vencer um prêmio de literatura? Novos tempos? A porta-voz da Academia Sueca, Sara Danius, fez o anúncio na quinta-feira (13), em Estocolmo, com um ar de que algo muito novo estava acontecendo.
Mas o fato é que Dylan tem inúmeras surpresas em sua vida de artista retirante. Bardo das ruas, a começar do nome inspirado no escritor galês Dylan Thomas, Robert Zimmerman, ou Bob Dylan, tem uma carreira dedicada ao ato de escrever.
Dylan ganha pelo conjunto da obra. Ele tem 30 livros publicados, caso de "Tarântula". Nesta coletânea de poesias que ele lançou em 1966 e que foi publicada no Brasil em 1986, sobressai o moderno em uma leitura apaixonante do acaso e das coisas da rua.
O que mais chama a atenção em sua obra, todavia, é o poder de sintetizar períodos e épocas, como em "Blowin' in the Wind", "Knockin' on Heaven's Door" e "Like a Rolling Stone".
Guerra, direitos civis, individualismo, injustiças, tudo enfim, cai em seu caldeirão.  
É verdade que a musicalidade de Dylan é simples, sendo muitas vezes mais singela do que os tradicionais três acordes do punk. Mas o que importa, o que sobra mesmo, é sempre a verve, como quando relata a história em "Hurricane": "Tiros de pistola ouvidos no bar/ Patty Valentine entra pelo corredor de cima/ Ela vê o garçom em uma poça de sangue/ Grita, 'Meu Deus, eles mataram todos eles! '/ Aqui vem a história do Furacão/ O homem que a polícia veio culpar/ Por algo que ele não fez/ Colocado em uma cela, mas um dia poderia ter sido/ O campeão do mundo".

PASSAGEM PELA GOSPEL MUSIC
Dylan é também vasto. Ele teve, por exemplo, uma rápida passagem pela gospel music. A ponto de gravar três discos com conteúdo exclusivamente cristão. Na últimas décadas, sua música se proliferou pelas igrejas dos EUA, sendo hino presente nos rituais de diversas denominações evangélicas. Universidades de música, história e sociologia se debruçam sobre a fase, tentando entender o que se passou com o cantor de origem judaica.
A Igreja Vineyard (Vinha), de Beverly Hills, ligada principalmente a artistas e ricos, foi o ponto de encontro de Dylan com Deus. Fundada na década de 1970, logo a denominação foi deixada de lado pelo músico. Dylan era mais esperto do que os pregadores.
O motivo aparente para a conversação de Dylan é a junção de experiências ruins em um único momento da vida: o fim de um casamento, o cansaço gerado por extensas turnês, a inclinação pessoal para temáticas espirituais, o arrependimento pelo ar arrogante e crítico e a influência de uma namorada. Dylan chegou a ganhar um prêmio Grammy com as composições desta fase, reunidas nos discos "Slow Train Comming" (1978) "Saved" (1979) e "Shot of Love" (1981).
Em 2009, ele voltou a reafirmar sua fase cristã, mas sem gravar discos com conteúdo que trata de forma exaustiva da salvação ou adoração. Mas o disco natalino foi uma prova disso. Dylan não comenta, mas é possível perceber um desencanto com as denominações que integram a linha neopentecostal, integrada pela sua antiga igreja.
A Vineyard é hoje popular no Brasil e mantém a mesma linha de pregação, mas sem Dylan como garoto propaganda. 
Dylan gravou inúmeros blues e spirituals de conotação religiosa. Ocorre que na fase evangélica aconteceu uma aceleração. Em "Saved", ele diz que encontrou Jesus: "Eu tenho sido guardado/ Pelo sangue do cordeiro/ Salvo/ Pelo sangue do cordeiro". Na mesma música, disse que estava "cego pelo diabo/ Nascido já em ruínas". Em "Precious Angel", ele canta com voz semi-gutural que "o que Deus nos dá nenhum homem pode tirar". E revela a força do Senhor em "Every Grain of Sand": "É na fúria do momento que eu posso ver a mão do Mestre/ Em cada folha que treme, em cada grão de areia". Mas as músicas mais populares de Dylan estão mesmo nas fases anteriores e posteriores à sua conversão. Em "Like a Rolling Stone", Dylan fala a uma mulher arrogante, que se achava melhor do que os outros. "Era uma vez, você se vestia tão bem/ Jogava esmola aos mendigos em seu auge, não era?/As pessoas chamavam, dizendo: cuidado boneca, você está pedindo pra cair. Você achou que todos eles estavam brincando com você/ Você costumava rir de todo mundo que ficava vadiando ao redor/ Agora você não fala tão alto/ Agora você não parece tão orgulhosa/ De estar tendo que vasculhar pela sua próxima refeição".
Em "The Times They Are A-Changin", Bob dá uma de profeta e diz que os tempos de letargia estão mudando: "Venham senadores, congressistas/ Por favor, escutem o chamado: não fiquem parados no vão da porta/ Pois aquele que se machucará será aquele que nos impediu/ Há uma batalha lá fora/ E está rugindo/ E logo irá balançar suas janelas/ E fazer ruir suas paredes/ Pois os tempos estão mudando". Parece com algo que vivemos agora, não?
Por essas e outras o prêmio Nobel é pouco para o bardo que tem nome de poeta. Muito seria se ele ganhasse as eleições americanas. Mas isso Dylan ainda não cogitou.

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