Publicado em 01 Outubro 2019
Jaldene Nunes

A sexta-feira, 27 de setembro, foi feriado em Goianésia, conforme a Lei Municipal nº 388, de 15 de junho do distante ano de 1974. O dia é dedicado à memória do fundador da cidade, Laurentino Martins Rodrigues, que foi morto a tiro, aos 54 anos, a 27 de setembro de 1961. Já "são 58 anos de saudade", diz uma mídia oficial da prefeitura local, espalhada em outdoors pela cidade, sobre o homem mineiro que veio para Goianésia, procedente de Anápolis, em outubro de 1943, em viagem que durou 3 dias, depois de ter adquirido parte da Fazenda Calção de Couro, que deu origem à cidade.
Laurentino, que conhecia a região desde 1939, quando se interessou por suas terras e sonhou com a formação de uma nova cidade, é bisavô de Renato Menezes de Castro (MDB), o atual prefeito local, que herdou o sangue político do seu ascendente mais ilustre. Primeiro líder político de Goianésia, pertencente à UDN, Laurentino foi também o 1º prefeito eleito pelo voto direto, em 1954, derrotando Salvador Leite (PSD), e a governou de 1955 a 1959. Dois anos depois, candidatou-se a vice-prefeito, e foi eleito, mas o candidato a prefeito de seu partido, Otávio Lage de Siqueira, não -- na época, diferentemente de hoje, as duas candidaturas não eram vinculadas e podia-se votar em um prefeito de um partido e o vice-prefeito de outro, mesmo que fossem oponentes, como foi o caso narrado.
Dessa forma, Laurentino tinha o cargo de vice-prefeito de direito, mas não de fato, e não exercia nenhum papel na administração, já que era adversário do prefeito eleito, Walter Augusto Fernandes, o Nego Walter. "Tudo o que meu pai fazia, o prefeito desmanchava", explica Dikson Martins Rodrigues, hoje com 79 anos, um dos 7 filhos, todos ainda vivos, de Laurentino e Berchiolina Rodrigues, a Dona Fiíca, ela falecida em 1994, com 81 anos.
Foi nessa época, quando vice-prefeito sem papel na administração local, que Laurentino foi assassinado. Um homem, de apenas pré-nome conhecido, Graciliano, atirou contra um grupo de moradores que conversavam no fim de tarde, na frente do comércio de Joaquim de Pina, o Seu Quim. Segundo Dikson, o atirador não visava o seu pai, mas o advogado Dr. Olímpio Jayme, na época ex-vereador de Goiânia, que teria se protegido atrás do vice-prefeito, de quem era amigo.
Olímpio era advogado da Fazenda São Carlos que tinha sido invadida por trabalhadores sem-terra. Estes foram retirados de lá, pela polícia, e o próprio Dr. Olímpio Jayme, influente que era, acompanhou tudo. Sem-terras teriam sido humilhados, alguns apanhado, até. Um deles, o Graciliano, negou-se a sair, escondeu-se na mata, mas, encontrado, sofreu ainda mais violência. Atormentado, não se sabe ao certo quantos dias depois, apareceu armado na cidade, e atirou contra o grupo, matando instantaneamente o maior líder de Goianésia, Laurentino, que já caiu sem vida aos pés de uma criança, parente de uma das pessoas com quem Laurentino e Olímpio conversavam.
O assassino foi preso no dia seguinte, quando a sua sogra o entregou para a polícia, indicando que ele se escondia embaixo de sua cama, em sua casa. Foi transferido para uma penitenciária e lá, sem ser julgado, morreu, segundo contam, de morte natural, menos de um ano depois.
Laurentino não viu a cidade a que deu início crescer, mas o seu sonho foi realizado. Goianésia é, hoje, considerada a mais próspera e mais importante cidade Norte Goiano, uma das mais belas do estado, projetada que foi pelo próprio Laurentino, que também lhe escolheu o nome, e pelo topógrafo Mário Augusto Alves, que dá nome a um museu local.
Em sua homenagem, na cidade, realiza-se anualmente a Corrida de Pedestre Laurentino Martins Rodrigues, que neste ano teve a sua 29ª edição; e um colégio estadual com mais de 50 anos de atividade. Ele dá nome, ainda, à Praça Matriz, cartão-postal de Goianésia; a uma comenda (Medalha Comenda do Fundador), a mais alta condecoração do Poder Legislativo local; e à sede do Poder Executivo municipal, além de um bairro, o Residencial Laurentino Martins. Berchiolina Rodrigues, sua esposa, cofundadora de Goianésia, dá nome ao Centro Cultural e também a diversos bairros, como Dona Fiíca e Nova Fiíca, ambos 1 e 2.
"Meu pai foi um grande desbravador, ele muito entusiasmado morava em Anápolis e resolveu comprar a Fazenda Calção de Couro. Com muita dificuldade e trabalho, conseguiu vencer, trouxe a família para cá em 1943, trouxe muito progresso para a cidade, fez essa cidade, hoje moderna, bonita, de nome, conhecida em todo o território nacional", afirma Dikson, orgulhoso da história de vida do pai.
"Mas, infelizmente, com a sua morte prematura, que foi um acontecimento que ninguém esperava, ele não viu esse progresso todo. A gente esperava era que ele tivesse presente vendo todos os acontecimentos que realizaram o seu sonho de pioneiro e que tornaram Goianésia no que ela é hoje", completou.
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