*Publicidade

Home     Artigos

Escola sem partido, embromação pura


Publicado em 02 Dezembro 2018

Valterli Guedes é advogado e  jornalista. Mora em Goiânia

|   Compartilhe esta página: facerbook  twitter  whatsapp

Minha experiência em salas de aulas, das mais modestas, ainda assim é suficiente para demonstrar o quanto de inocuidade reveste o tão propalado projeto "Escola sem Partido". Bobagem pura. Suprimir das pessoas as suas ideias, ou substitui-las por decreto é projeto cuja indigência mental salta aos olhos. Aqueles que, assumindo o poder, a exemplo de Hitler e de Stalin, decidiram exterminar ideias, fracassaram. Mataram milhões de pessoas, cujas ideias sobreviveram a ambos. E, não raro, tais ideias ainda agora alcançam seguidas vitórias. 
Na gloriosa Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, quando fui seu aluno (1970/74), um dos mais queridos professores era José Bernardo Félix de Souza. Dotado de rara sabedoria, resultado dos estudos e da experiência, um dia ele contou-me, durante intervalo de aulas, haver sido preso quando com outros jovens promoviam manifestação na Praça da Liberdade, na Cidade de Goiás, pelo então governador de Goiás, Dr. Brasil Ramos Caiado, sob a acusação de "agitador". Vivia-se o final da década de 1920. Mais de 40 anos passados, Mestre Zé Bernardo valia-se daquele episódio para orientar seu comportamento diante da ordem então vigente. Revelou-me haver buscado inspiração no Movimento Praxis lançado em São Paulo pelo poeta Mário Chamie, e compôs um "hai-cai"  definindo sua posição política na quadra da História que atravessávamos: 

" Nesta revolução
Quero passar esquecido
Nem nomeado
Nem demitido".

Sugeri-lhe acrescentar "nem aposentado", para prevenir contra o que a ditadura então vigente (eram tempos de AI 5), fizera contra alguns de seus colegas professores. Senti-me honrado ao ver minha sugestão acolhida.
A suposta neutralidade do veterano Mestre, Paraninfo de nossa Turma de Formandos escolhido por aclamação, continha, está claro, ferina ironia à ditadura. Pairando acima dos dois partidos tolerados pelo sistema (Arena e MDB), o saudoso José Bernardo fazia uma contundente crítica aos que desperdiçavam seus esforços na tentativa de suprimir ideias, sobretudo o Ideal da Liberdade, vocação natural dos povos. 
Ocorreu o inevitável: os ditadores se foram com seus remorsos; as ideias prosseguem. Até avançam, embora por vezes tropecem nos obstáculos. Um deles, grave e absurdo, é o tal projeto de "Escola sem Partido". Melhor será termos escolas com partidos. Não um, nem dois. Com todos os partidos sendo estudados, debatidos e analisados. Desnudados. Partidos mantidos com dinheiro público? Candidatos mudando a filiação partidária com base no quem dá mais para a campanha? Dinheiro dos impostos patrocinando cerveja para eleitor? Enfim, mostrar tudo isso. Não é o caso de tentar impingir qual seja o melhor, ou pior. Mostrar todos, debatê-los. É bobagem ou má-fé, ou as duas, dizer que escola deve ser campo neutro em matéria de ideias. No período de vigência da Constituição de 1946, o movimento estudantil era ativo. Havia debate. E os resultados eram positivos. Dele, do movimento estudantil, surgiram políticos e profissionais marcantes. Citode memória alguns goianos oriundos dos movimentos estudantis: Henrique de Campos Meirelles, Olinto Meirelles, João Bosco Louza, Tarzan de Castro, Manoel Mendonça, Iris Rezende, Iram Saraiva, Aldo Arantes, Cristóvam do Espírito Santo, Wander Arantes, José de Assis, João Natal, Aldo Azevedo, Gilberto Santana Filho, Linda Monteiro, Joaquim Ferreira Coimbra, José Segurado, Adircélio de Moraes Ferreira, Armênia Nercessian, Ademar, Henrique e Romualdo Santillo. Pessoas cujas ideias floresceram, dão frutos e têm prosseguimento.
O que entrou em desuso foi a ideia de partido único da ditadura. E aqui, novamente, lembro da minha Faculdade, cujo último ano teve enxertado no currículo do Curso de Direito, a exemplo do que foi feito com os demais cursos da UFG e de todas as universidades brasileiras, uma disciplina de denominação sugestiva: Estudos de Problemas Brasileiros. Problemas, qual o que?! Os professores davam aulas era de soluções. Por sinal, prontas. Um risco de cima abaixo no quadro negro dividia a História das realizações de todos os governos do Brasil em dois períodos: "Até 1964", e "Depois de 1964". E tome números grandiloquentes das realizações ditatoriais. Milhares a mais de alunos nas universidades, muito mais rodovias asfaltadas, reforma agrária enfim concretizada. O paraíso.
Na prática, estava ali ao nosso alcance a escola sem partido. Ou de um só partido, o que está no poder. Do jeitinho que vai ser tentado por Bolsonaro que, para tanto, até já importou da Colômbia seu futuro ministro da Educação.

 

Jornal Diário do Norte

E-mail jornaldiariodonorte@uol.com.br

Endereço Avenida Federal Nº. 248 Centro, Porangatu Goiás.

© 2026 - Jornal Diário do Norte