*Publicidade

Home     Artigos

BR-153 — Basta, queremos viver!


Publicado em 05 Agosto 2013

Euclides Oliveira é jornalista

|   Compartilhe esta página: facerbook  twitter  whatsapp

Estou perto de completar oito anos da minha primeira viagem pela BR-153 a partir de Goiânia - passando por Uruaçu e Santa Tereza de Goiás - quando cheguei a Minaçu - no remoto setembro de 2005 - vindo do interior paulista - para trabalhar no Diário do Norte. Lembro-me do medo que tive com o tráfego pesado de tantos caminhões e as ultrapassagens sem critério de tantos carros pequenos, como o meu. Em sete meses, àquela época, saí apenas duas vezes de Minaçu para Goiânia. Já ouvia falar muito dos perigos da BR-153, apelidada há muito tempo de ´rodovia da morte´. Ou seja, um susto grande para um recém-chegado do Estado de São Paulo, onde há muito tempo ninguém faz uma viagem de 420km - como de Porangatu a Goiânia - em pista simples. Lá, já é quase tudo duplicado (e privatizado, enfim). Ou seja, outra realidade. 
Mas vamos falar da nossa realidade, que é a BR-153. Como eu disse, são oito anos no Norte de Goiás. E o que aconteceu comigo nesses oito anos? Envelheci e acostumei-me, como jornalista, a noticiar mortes e mais mortes na BR-153 entre Jaraguá e Porangatu, passando por Rialma, Itapaci e São Luiz do Norte, Campinorte e tantas outras cidades.  Os acidentes são motivados pela imprudência? É claro que sim. Mas muitas vidas também são sacrificadas pela ausência do Estado brasileiro - diga-se do governo federal e de seu Ministério dos Transportes - na modernização da BR-153. Nas vezes que fui de carro a Jundiaí (SP) - minha terra natal - viajei pela pista duplicada da BR-153 entre Goiânia e Itumbiara, no Sul do Estado. Uma tranquilidade que só vendo. 
Mas o Norte - esse Norte Goiano - continua esquecido por quem manda nesse Estado e nesse País. E eu continuo a noticiar mortes na BR-153. A morte faz parte da minha rotina, como profissional da imprensa. Mas eu, como qualquer outro motorista, também viajo pela BR-153, temendo pela minha vida e orando sempre para que nada de mal me aconteça. Esse ano, desloquei-me seis vezes no trecho Uruaçu-Goiânia-Uruaçu por força de paradas obrigatórias em Ceres (onde passei por uma cirurgia de garganta, em maio passado). Enquanto a data do procedimento não era marcada, minha vontade era usar todo o gás da minha pobre garganta e gritar palavrões - de medo e de pavor - contra os caminhoneiros que ameaçavam passar por cima do meu modesto carro, porque os ´brutos´ do volante não estão nem aí para nós, incautos motoristas de veículos pequenos. Nos dez últimos anos, durante o governo do PT à frente do País, falou-se muito num tal de PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), mas o que ainda ouvimos, na BR-153, é o barulho infernal das tragédias, dos carros batendo, das latarias e corpos pegando fogo - carbonizados e dilacerados - sem que haja prazo para isso acabar. Afinal de contas, as lideranças goianas no Congresso Nacional sequer deram conta de, nos últimos dez anos, garantirem recursos à duplicação da BR-153 entre Goiânia e Porangatu. Talvez, um dia, quando um parente de um ´figurão´ goiano perder a vida na BR-153, alguém lembre de mexer. Talvez alguém lembre-se das vidas ceifadas. Talvez alguém lembre-se também dos mortos: a ex-prefeita de Uruaçu, Marisa Araújo - símbolo dessa luta para duplicar a BR-153 - foi dessa para melhor há dois anos, vitimada pela estrada em que tanto rodou para buscar recursos aos seus munícipes, durante seus dois mandatos em oito anos.  
A BR-153 é um caixão a céu aberto, um enterro que não acaba: basta ver o emaranhado de cruzes em seus acostamentos de pista simples, colocados simbolicamente às margem da pista pelas famílias que perderam seus entes queridos. Enquanto as autoridades não se mexerem, as funerárias vão continuar faturando forte à custa do sofrimento alheio. Queremos duplicação já. Ou teremos que vivenciar a multiplicação das mortes nessa estrada para sempre? Basta, queremos viver!
 

Jornal Diário do Norte

E-mail jornaldiariodonorte@uol.com.br

Endereço Avenida Federal Nº. 248 Centro, Porangatu Goiás.

© 2026 - Jornal Diário do Norte